sexta-feira, 18 de abril de 2008




I am the escaped one,
After I was born
They locked me up inside me
But I left.
My soul seeks me,
Through hills and valley,
I hope my soul Never finds me.

Fernando Pessoa

sábado, 12 de abril de 2008

OK, não vou mais.


E nem queria.
Aos jogos, sim, que me apraz assaz veraz o desporto - espicaça a mente e estimula o espírito, afora os benfazejos resultados no corpo.
Mas não vou mais à China esse ano. E nem nos próximos, a não ser que seja pra protestar. Contra um monte de coisas. Contra as violações dos Direitos Humanos, contra a censura, contra a atitude chinesa no mercado mundial, contra o Unipartidarismo, contra as restrições no Tibet.
Sou um Plutocrata Pragmata, só acredito na liberdade. Sou um iconoclasta, não vou atrás de histórias da carochinha de governo nem partido nenhum.
Estou deliberada e assertivamente boicotando os Jogos Olímpicos de Beijing. Eles que se cocem. E se quiserem mais, é só pedir, que eu sou pau pra toda obra. Se a tocha vier pra Wuppertal, eu apago (olha que se bobear eu vou lá apagar ela em outro lugar que ela passar também).
Sim, sim, a gente tem problemas do mesmo gênero ou parecidos aqui (aí) na Latinamérica, um monte de gente doente e passando fome, que não sabe escrever, censura nos nossos hermanos (no Brasil não? cadê o documentário "Cidadão Kane", sobre Roberto Marinho, que eu só vejo no submundo em cópias piratas?). Mas tudo faz parte da mesma realidade, é uma questão de princípio. E isso eu não vou jogar fora, por que não achei no lixo (e olha que eu encontro muita coisa útil e bonita no lixo).
Quanta burrice existe no mundo. Ora, faça-me o favor.


PS: (ouça mais música).

segunda-feira, 7 de abril de 2008





Então eu pisaria descalço no capacho da entrada da minha casa de manhã e ouviria de repente o zunido do vento passando por debaixo dos pés enquanto ele, capacho voador, me levaria pela janela entreaberta da escada do edifício. Passaríamos por cima do jardim, dos trilhos de trem, da fábrica de aspirina, por cima da Friedrich-Ebert Strasse e subindo mais, o outro lado do vale. Eu voaria por cima da Alemanha e da França, espantaria os camponeses do século vinte e um na Normandia, e por cima do Oceano Atlântico, entraria como um relâmpago pelas nuvens de tempestade e sombrearia pontual os Caboverdeanos, os Madeirenses, as baleias, os monstros marinhos, os japoneses escondidos, até ver a beira mansa duma praia brasileira, meu nariz cheio de ar salgado e cheiro de peixe e de gaivotas. Meu capacho voador riscaria o céu da Serra do Mar e flutuaria até a janela do seu apartamento, por onde eu entraria e te veria pelo espelho do quarto, os olhos enormes de susto e prazer.

terça-feira, 18 de março de 2008

sábado, 15 de março de 2008

Arroz Tricolor

Aproveitando o ensejo - por que hoje eu fiz uma coalhada que não deu muito certo. Claro, leva-se uns 3 dias pra "fazer" uma coalhada, mas só hoje que vi o resultado. Não parece muito uma coalhada, ficou mais como um iogurte virando a esquina, sabe como? Tipo um iogurte indo embora sem dizer obrigado nem nada? Mas beleza, o sabor não é ruim. Pode ser melhor, mas não é ruim. Vira molho pra salada de pepino, que tal? Enfim.

Mas a receita de hoje no Maravilhoso Mundo Duschenes da Culinária é o Arroz Tricolor. Muito simples. Segue a receita:


Ingredientes: Arroz.
Modo de preparo: Cozinhe o arroz até que esteja macio porém não grudado. Ou tanto faz. Reserve e deixe descansar.


Vá viajar pela Baviera, pela Alsácia, esbarre nos Pirineus franceses, suba até Hamburg e volte 10 dias depois.

O arroz já deve ter tomado o seguinte aspecto (cuidado ao abrir a panela):


Sirva frio, como uma vingança. Em tempo, não fui eu quem deixou o arroz estragar na panela, mas achei bastante plástico o resultado. Batizei o prato de "Arroz Fim-do-Mundo", sou um cara super up-to-date. Bom, vanguardas à parte, tenho mais coisas pra contar e mostrar da minha última viagem.

No último post, disse que ia encontrar Tia Erika e de fato, encontrei. Está uma velhinha muito animadinha, não mudou muito de 16 anos atrás. Inclusive, veio me buscar com o mesmo Audi 80 com que viajamos pela Baviera, Suiça e Austria em 92. Não conhecia o seu filho Florian, mas dessa vez ele apareceu. Gente boa. As fotos abaixo:




No domingo passado, saí de Munique em direção a Stuttgart, para conhecer o meu mais novo parente, Johannes-Karsten Duschenes e sua adorável família. Foi ótimo, me senti de verdade em casa, me trataram como filho. Iris, sua esposa, muito atenciosa e gentil, e Oliver (Ola), filho de Iris, gente finíssima. Uma família sossegada e simpática, foram realmente legais.



Tão legais que Karsten fez questão de me dar uma grana pra ajudar na passagem de trem. O Ola estava junto e resolveu "inteirar" pra eu ir de primeira classe - ou seja, dividimos a passagem em 3 e eu fui de ICE na primeira, feito um rico. Foi massa.




Apesar de ser ICE, atrasou na saída e eu fiquei uma hora esperando na estação de baldeação (eram 3 trens). Mas tudo bem, esperei de rico, mesmo assim. Isso era pra ir de Stuttgart a Strasbourg, na França.




Que bonitinha, essa cidade. Lembram-se daquele slogan anos 80 "Strassburger, você sabe onde pisa"? Não saía da minha cabeça...



Mas que belezurinha de cidade. Parece que saiu de um pop-up book. Toda de casinhas antiguinhas, ruazetas medievais, uma coisa.





E uma boa comida (claro, a € 30,00 se eu comesse mal ia dar um murro na cara do garçon). Foi lá que eu fui encontrar o Rafael (Moraes) e ver o seu espetáculo. Muito bacana, um belo espetáculo. Circomusicoteatral.



Passei dois dias em Strasbourg e de lá pegamos o caminhãozinho do Rafa em direção à sua casa no sul da França.




Saímos às 9 de la matina, paramos em St.Agil onde fica o pessoal da nave-mãe (a companhia de circo) pra deixar umas coisas e trocar de carro. Tcharamram, Rafael numa atitude bastante rafaelística tacou a mão num prego, que atravessou seu dedo espalhando ferrugem por tudo que fosse carne. Que maravilha... o coitado viu o dedo inchar em 5 minutos que nem um baiacú. O mindinho parecia uma porpeta.


Ok, hospital, anti-tetânica, acabamos chegando depois das 3 da manhã em Fusterouau, nosso destino. Eu dormi bem, essa noite, no trailer. Esse da foto. Muito confortável. Esfriava e esquentava, mas era muito confortável.




Aí foi um maravilhoso final-de-semana. Conheci sua casa, os arredores, fizemos passeios. A casa é linda, fica na região de Armagnac, na Gascogne. Típico sul Francês, próximo dos Pirineus. Lindo mesmo.





Blancaluz tinha a visita dos avós, vindos da Argentina, uma gente muito simpática. Jogamos, contamos piada, comemos pipoca, ouvimos música, foi ótimo.


De lá peguei um vôo barato pra Hamburg (era a melhor opção, € 80,00 mais os €20,00 da mitfahr - contra possíveis € 600,00 se eu voasse no domingo a Dusseldorf).


E de novo, aqui estamos.


sábado, 1 de março de 2008





Como é belo o céu azul da Baviera.
O casal vinha em minha direção, no meio do movimento da rua de pedestres. Eu estava encostado em uma das colunas da frente da galeria, havia acabado de sair do café. Ele, típico alemão, loiro de olhos claros, ela com a pele branca imaculada, jovens e bonitos. E apaixonados. Em frente, um acordeonista rasgava o ar com notas vivazes. Pararam na minha frente e se despediram com um beijo longo, as mãos dela nos cabelos dele. Se olharam ternamente e foram-se, ele rua acima, ela em direção ao metrô. Cada um empurrando com as mãos as rodas de suas cadeiras.
Como é belo o céu azul da Baviera.

Estou no quarto do Hostel, as luzes estão apagadas, são 8 da noite. Descanso um pouco minhas pernas. Hoje foi um dia longo. Lá fora faz um pouco de frio, mas o céu da noite está limpo. Ainda venta um pouco, mas nada como hoje de manhã. Quando acordei, ouvi o assobio do vento nas arvores lá fora. Ventava forte. Das janelas do lobby, pude ver a tempestade se aproximando. Na hora em que saí para tomar café na Backerei, pude sentir o que vinha. O vento atrapalhava para caminhar, de tão forte. E então desabou. Primeiro, muita água fria. Logo, um granizo fino e, em seguida, neve. Inesperado – ontem fazia até um certo calor. Nevou durante toda a manhã, uma nevezinha acanhada mas branca, que encharcou as ruas e os telhados. E ventou.



Tão de repente como veio a neve, limpou-se de súbito o céu e o sol brilhou no sorriso dos turistas e dos vendedores da cidade. E eu, com o coração esparramado, me deixei levar pelas ruas de Munique como uma criança, olhando cada detalhe, cada adorno gótico, cada voluta barroca. Absorvi os cheiros e sabores feito um mata-borrão simbolista. Um milhão de imagens varando os olhos: o relógio de Marienplatz com seus dançarinos de mentira e seus sinos de caixa de música, os olhos esgazeados do pecador morrendo na Asamkirche,


o sabor da Schweinhaxe, todas as lojas das griffes entre Karlsplatz e o caminho até a Rezidenz, a barraca de protesto contra o regime comunista chinês com suas fotos chocantes de pessoas torturadas e mortas, o plácido English Garten e seu banheiro público impecável, os surfistas urbanos do Rio Isar ,




ao lado da Haus der Kunst. O prazer de ouvir a voz alegre da minha tia Erika no telefone (e a antecipação do encontro com ela depois de 16 anos), o sabor do café, uma água que matou uma sede, todas as mulheres bonitas andando rápido para algum lugar, o azul cristalino do canivete suiço que me dei, o frio, o sol, o vento, o céu absolutamente profundo da Baviera. “Ein weisses Propeler auf dem blauen bayern Himmel” – o símbolo da BMW.


Aliás, nota: ontem vim de mitfahr (o serviço de carona via internet, muito mais barato que pegar trem ou avião e em geral mais divertido), numa BMW 525. Nunca estive num carro a 230 Km/h, que eu me lembre. Mas nessa Autobahn, com esse carro, parecia que estávamos a passeio. Mesmo assim, com a quantidade de engarrafamentos que pegamos, a viagem levou quase 9 horas. Mitfahr e Hostel – combinação backpacker. Nada melhor, pra quem viaja sozinho. Primeiro por que é muito barato – o Hostel sai por € 13,00 (em Berlin foi € 8,5) contra € 50,00 dum Ibis por aí. Claro, 3 ou 4 beliches num quarto comum. Mas isso, pra quem precisa conhecer gente pra compartir as observações da viagem, é o que há de melhor. Daqui a pouco saio pra dar uma banda, tomar uma cerveja em algum lugar.



Amanhã encontro a Erika pra almoçarmos. Na segunda, vou a Stuttgart encontrar o Karsten, meu novo tio – achei ele na internet por acaso, e nos tornamos amigos. Pelo que suspeitamos, o avô do meu tataravô é irmão do pai do seu tataravô. Temos a maior parte dos nomes dos pais, avós, filhos, primos e etc – menos desse cara. Por isso não temos certeza. Mas tudo indica que a história está certa, e ele realmente é do outro ramo da família, pessoal da Hungria, Tchecoslováquia e Romênia. Vou saber mais essa semana. Fico por aqui. Saudades de todos os amigos, saudades das comidas, dos sucos e das frutas do Brasil.


sábado, 16 de fevereiro de 2008

Janeiro. Em fevereiro.

ANO NOVO EM WUPPERTAL

31 de dezembro 2008. Reveillon. Incrível que em Wuppertal tenha sido tão colorida a festa. Da minha janela não dava pra ver tanta coisa, mas com certeza muita fumaça colorida e uma barulheira infernal. No bom sentido.

À uma e meia da manhã lembrei que tinha deixado minha passagem no estúdio. Não seria problema, se eu não tivesse que sair as 7:00 de casa para viajar. Quem viaja no dia primeiro? Ou não tem nada pra fazer, ou não tem dinheiro ou é meio doido. Ou tudo meio junto. Um monte de turistas suecos voltando pra casa, alguns africanos voltando para seus empregos na beira do mediterrâneo, outros destinos que eu não tive atenção para notar, com tanto sono. Mas antes,

Peguei a bike e desci pro estudio, desviando dos cacos de vidro das centenas de garrafas de todos os tipos jogadas na rua e na calçada pelos felizes nativos. Menos três graus. De bike. Na descida. OK. Peguei a passagem e caminho da roça. No comecinho da subida, puufffffffff. Caco de vidro fiadaputa.

É assim: um trem pra dusseldorf. Espera. Ônibus para Weeze. Espera. Avião para Girona. Espera. Ônibus para Barcelona. Espera. Metrô para Liceo. Encontra o Rafa e anda um tico. É assim que vai daqui a Barcelona pela Ryan air. Vale a pena? No fim das contas, não sei, cheguei no fim da tarde, quase um dia de viagem. Mas que sai mais barato, sai. Não muito, mas sai.

BARCELONA

Barcelona é aquilo que imaginamos que seja. Uma maravilha caótica, quente e simpática, entupida de turistas nessa época do ano. E creio que em outras épocas também. Afinal, se estamos no inverno (ainda que nada comparável ao meu retiro polar em W’tal), faça o quadro do verão. Lindo. Eu me sinto em casa. Aliás, me parece que conheço melhor a cidade do que a outra, onde vivo. Ao menos decerto andei muito mais em Barcelona do que aqui. Fiquei na casa do Rafa no Raval, perto do Teatro do Liceo, num desses apartamentos decadentes absolutamente adoráveis, numa das vizinhanças mais barra-pesadas da cidade. Pra um paulistano, ainda é café pequeno. A uma quadra da Rambla, onde os preços, já altos, dobram. Ou é o que me parece. Por que tudo lá custa muito mais do que em W’tal, que por sinal descobri ser uma barata e pacata cidade. Nada como comparações, não? (segundo Einstein nada existe no universo sem que algo se mova – ou seja, nada existe sem parâmetros. Relatividade básica, citação de balcão de bar).
Um dia só, infelizmente, mas o bastante para dar um belo passeio, acompanhado de minha querida amiga Micaela Ameri, cujas observações sobre a cidade e seus habitantes adicionaram proveitosos conhecimentos ao meu cabedal. Pelo menos já sei dizer que me chamo Daniel. Em catalão. Mas não sei como se escreve, óbvio. A frase, não o nome, óbvio.

Fomos à Fundação Joan Miró, ver uma exposição de um artista japonês que ela queria muito ver. Vimos uma exposição de uma japonesa – o japonês já tinha ido embora. Nada especial, na minha opinião. Mas sempre há o que se lembrar, e para o caso havia um desenho de um rosto de menina com um brilho especial nos olhos, tão absolutamente japonês e pop, mas tão insolitamente marcante. Chama-se Erina Matsui, a artista.

Depois um bom almoço, mais umas voltas pela cidade, uma noite sem sono e a saída para o aeroporto às 4:30 da manhã. A grande vantagem de ter saído tão cedo de barcelona foi, por causa do trajeto que me levava a uma baldeação obrigatória em Heathrow, o maravilhoso alvorecer sobre os Pirineus, a 10 mil metros de altura, com um dia sem nuvens se anunciando gelado sobre as neves inóspitas daqueles picos. A companhia aérea é muito confortável, tenho que admitir. Para uma lata de sardinha voadora inglesa, até que não nos sentimos mal acomodados – e olhe que eu tenho as pernas compridas da genética alemã.

Quando passamos a linha litorânea brasileira, era dia ainda. Um longo fim de tarde. De repente, no horizonte, como se fosse um enorme incêndio, um rio de fogo alaranjado espoucava em rasgos cintilantes, correndo numa mancha movediça de um lado a outro da minha visão. Era o São Franscisco, que refletia a luz da tarde. Mas visto de 10 mil metros de altura, em toda a sua exuberante magnitude. Não sei quantos no avião estavam assistindo ao espetáculo. Mas foi impressionante. Durante horas, enquanto o sol baixava, o rio mostrava-se entre as poucas nuvens como uma fita espelhada, ora mais fino, ora mais grosso, apontando o norte e o sul. De vez enquando, um raio de sol refletia num movimento de água qualquer e era como se infinitos peixes-luz saltassem sobre a superfície. Dessas imagens indescritíveis e que a gente guarda como pequenos relicários.

BRASIL

Buf. A aeromoça abriu a porta do avião e eu senti aquele bafo quente, um misto de ar salgado e molhado, e terra e poluição e cheiro de obra, asfalto. Brasil, São Paulo. No meu interior, várias sensações gritando numa enorme assembléia de loucos.
Cada uma querendo atenção para si. Mas basicamente, a sensação de recobrar o domínio. Como se de novo eu fosse senhor da situação, algo que estivesse perdido há algum tempo. Era noite.

Eu ainda não estava totalmente situado. Muito cansaço da viagem, o fuso, a ansiedade de usufruir cada instantezinho logo no momento em que desci a escada do avião. Claro, ainda tinha o percurso Cumbica – São Paulo, pra percorrer de ônibus. Por que taxi é um esfolo. Foi ótimo, esse ônibus.

Éramos como quatro ou cinco pessoas no ônibus depois de deixarmos a maioria dos viajantes na rodoviária do Tietê, eu, o motorista e duas ou três mulheres. No caminho da rodoviária, estava sentado ao lado de um sujeito que falava ao celular: não mãe, não deu certo, não sei, o advogado dela vai entrar com os papéis, sim, na alemanha, é, agora cada um pro seu lado. Estava muito triste, parecia. Tinha a voz de frustrado, acho que seu casamento com a alemã tinha se desfeito.
Uma das mulheres então chegou para o motorista. O diálogo foi mais ou menos o que se segue:

- Oi, o senhor vai fazer qual caminho?
- Você precisa descer em algum lugar?
- Você passa na Floriano?
- Eu não vou pela Floriano, desço direto pela Juscelino. Você precisa ficar na Floriano?
- É, na Bandeira Paulista, mas tudo bem, não tem importância.
- Bom, a empresa não permite que a gente deixe os passageiros antes do ponto, sabe? É perigoso. E depois, lá na Juscelino tem os taxistas, já são conhecidos, tem mais gente. É mais seguro. Ainda mais agora à noite.
- Tudo bem, tudo bem, então.
(um minuto de silêncio)
- Mas eu posso fazer outro caminho, de repente eu vou aqui pela Floriano, e viro depois na João Cachoeira. Você fica onde?
(Nesse momento, ele virou à esquerda na Floriano, saindo do caminho que a empresa tinha prescrito. Eu fiquei espantado de como eu havia me tornado alemão nesse tempo. Seria impensável, absolutamente, um diálogo como esse num ônibus alemão. Quanto mais, o motorista aquiescer e mudar o caminho pra ajudar a passageira. Esse diálogo não existiria por que a passageira NUNCA faria a pergunta. Se fizesse, o motorista – que nunca esperaria isso – diria um ríspido NEIN. Se ele além disso topasse a conversa, apenas para explicar os motivos ou ser gentil – coisa impossível – ele NUNCA, DE MANEIRA NENHUMA pararia fora do ponto ou, coisa inimaginável, mudaria seu percurso. E eu estava acostumado com isso).
- Bandeira Paulista, ali, na esquina, está ótimo. Muito obrigada. Eu posso abrir o porta-malas?
- Deixe que eu te ajudo, um minuto.

Foi assim que eu cheguei no Brasil.

Meu quarto azul, o café-da-manhã de casa, a sensação de estar na toca. O cheiro de casa, de café sendo passado, os cachorros. Que delícia. Encontrei a Fê por alguns minutos, nessa chegada. Pena, não pude falar muito com ela durante minha estadia no país. Amigos, cervejas, risadas, uns soluços aqui e ali. Mas no dia seguinte, viagem a Curitiba.

A cidade está igual. Ainda bem, não? E foi tão bom encontrar a família, um de cada vez, oi, oi, oi. Mas foi bem rápido, uma noite e na manhã seguinte, antes das 7:00 o Guito já estava lá embaixo tocando o interfone – eu, ele e o Pedro seríamos os primeiros a chegar na praia. Primeiros depois do Feco, que não vale por que já mora lá.

Quatro Ilhas. Preciso dizer muito, ou a foto fala por si? Coloco de propósito as duas fotos juntas, a que eu tirei no aeroporto de Dusseldorf e a outra na praia. Alguma diferença?


Do dia 5 ao 15, praia. Boa companhia, pouca chuva, muito sol, muitos argentinos e argentinas, muita comida. Surfe, no fim, só um dia, de teimosia, nós quatro resolvemos cair num mar mexido. De resto, as maravilhas da praia, suas tardes coloridas, os corpos bronzeados, o cheiro de mar, os pratos do litoral. Leituras no sofá nas horas de muito sol. Aliás, o que é água-furtada? Posso procurar na WEB, e vou, mas pergunto mesmo assim. E inventei a Dodecacofonia. Que é uma escala de 12 graduações de sons horríveis (e cafonas).
Não há muito o que dizer sobre dias na praia, mas esse não muito é muito grande. O grande recarregador da pilha humana. Pra mim, pelo menos.

Depois, uns dias em Curitiba, pra dar uma pausa, e de volta à praia, mas dessa vez com a Joanna e os filhotes em Ilhabela. Praia, praia, etc, etc. Maravilha.

E SP. O melhor daí foi a festa da Anita Cortizas, que me pegou de surpresa – não esperava nada de festa em tao pouco tempo (tinha só 3 dias, precisava voltar pra continuar minha tatuagem em Curitiba). Pude encontrar uma boa leva de amigos e amigas nessa festa. Paulista sabe dar festa. Brasileiro sabe dar festa, em geral. Uma festa sem pretensões, mas muito bem feita, com boa música pra dançar, espaço pra conversar, comer, beber, uma delícia. Amigos de todas as épocas, misturados, muito colorido. Num desses dias me apareceu esse bicho na janela, enquanto eu checava meus emails. Um passarinho verde e barulhento, escandaloso. Altamente outsider, essa coisa assim tão ecológica a três quadra da Marginal.




E Curitiba. Tatuagem, que não deveria doer muito e doeu pacas. Não deu pra ir muito longe, ainda falta bastante coisa pra terminar. Não é uma tatuagemZINHA. Não mostro agora numa foto, além das que já mostrei, agora só quando estiver pronta.


Em Curitiba revi a Teoria da Pizza Eterna, junto com Feco e Guito numa noite de fome. É a minha solução para a fome no mundo. Uma pizza inteira. Divida-a pela metade e sirva uma parte. A parte que sobrou, corte novamente pela metade e sirva um pedaço. O pedaço restante, divida mais uma vez. E assim sucessivamente, vá cortando pela metade e servindo. Sempre haverá metade para servir. Assim está resolvido o problema da fome. Obrigado, obrigado, eu não quero nada em troca, só reconhecimento. É um paradoxo, na verdade, conhecido como Paradoxo da Flecha, do filósofo grego Zenon. Uma flecha, que se desloca em direção a um alvo fixo. Cumpre metade da distância, mas há ainda metade da distância para cumprir. Então, cumpre mais metade dessa distância restante, mas ainda há metade para cumprir. E assim para sempre, com uma metade por cumprir, a flecha nunca atinge o alvo (Mas ela atinge, viu. Pode dormir).


Beijos em todos os irmãos, no pai e na Célia, um pouco de coração apertado na hora de pegar o elevador e São Paulo mais um dia, antes de voar.


O vôo da British saiu no fim da tarde.


Eu não pude dormir nesse vôo. Talvez estivesse muito ansioso, ou excitado pela nova mudança de ares, não sei. Fiquei assistindo aos filmes, lendo, dava umas pescadas de vez enquando. No meio da madrugada, acordei de um desses breves cochilos. O avião estava escuro e o motor parecia mais ensurdecedor. Ao meu lado, o casal que viajava pra Macau dormia. Abri a janelinha. No céu, as estrelas salpicavam o escuro com pontinhos. No horizonte, mais ou menos à mesma altura em que voávamos, uma densa névoa branca se estendia como uma via-láctea de vapor esbranquiçado, dividindo o campo visual em duas grandes abóbodas. Quando olhei para baixo, no meio do breu azulado, me surpreendi com ver estrelas. Estou sonhando ainda? O mar está refletindo as estrelas? Não é possível, mas o que eu via era absurdo e me dava a impressão mais insólita, de estar num avião cortando o espaço sideral, pois para onde eu olhasse só via céu escuro e estrelas, embaixo e em cima. Fiquei alguns minutos me nutrindo daquela visão, contendo a minha ânsia de respostas. Quando alguém acendeu uma luz na cabine, alguma aeromoça, saí sem querer desse pequeno transe. Eram navios na costa de portugal. No escuro e tão longe estavam, que suas luzes brilhavam como estrelas. Eram inúmeros, um belo mar de estrelas.


Antes, durante a noite, já havia aberto a janela ao acaso uma ou duas vezes. Numa delas, me deparei com a luz noturna de uma ilha. Ora, era uma ilha de porte razoável, e no Atlântico não é assim, que vamos vendo ilhas a torto e a direito. Consultei o mapa na tela à minha frente. Estávamos sobrevoando Cabo Verde.


Manhã fria em Londres – nada muito pior do que eu deixei no amalucado verão do sudeste brasileiro (em SP fazia 15 graus quando saí), um atípico clima invernal – mas dentro do caríssimo aeroporto de Heathrow a temperatura era amena. Até quente, para o casaco de couro e pelo de carneiro que eu usava.


Foi no portão 17 do Terminal 4 que eu comecei subitamente a me sentir de novo na Europa. Sentado numa poltrona de couro vermelho, aguçei os ouvidos. Nada de minha língua. A maioria falava alemão, um e outro inglês. Foi ali que de novo a solidão foi tomando seu assento, me fazendo de novo estrangeiro.


Em que momento exato a gente passa sobre a linha que separa a terra da água? É tão breve e inexistente quanto o átimo em que um dedo toca o outro? Quanto tempo leva esse primeiro instante? E o instante em que um dedo se desliga de outro, quanto tempo leva? Em que instante mergulhamos nosso corpo num lago, exatamente em que instante esse lago nos recebe?


E um frio desgraçado, carnaval na alemanha, vampiros, piratas, monges, espermatozóides, caixas de remédio, bruxas, todas as fantasias bem feitinhas, todos em grupos, bem bêbados e risonhos, naquele dia gelado, na estação de trem de Dusseldorf. Umas paradas depois, Tiergartenstr.232, muito sono e aqui estamos.