
I am the escaped one,
After I was born
They locked me up inside me
But I left.
My soul seeks me,
Through hills and valley,
I hope my soul Never finds me.
Fernando Pessoa


Sirva frio, como uma vingança. Em tempo, não fui eu quem deixou o arroz estragar na panela, mas achei bastante plástico o resultado. Batizei o prato de "Arroz Fim-do-Mundo", sou um cara super up-to-date. Bom, vanguardas à parte, tenho mais coisas pra contar e mostrar da minha última viagem.
No último post, disse que ia encontrar Tia Erika e de fato, encontrei. Está uma velhinha muito animadinha, não mudou muito de 16 anos atrás. Inclusive, veio me buscar com o mesmo Audi 80 com que viajamos pela Baviera, Suiça e Austria em 92. Não conhecia o seu filho Florian, mas dessa vez ele apareceu. Gente boa. As fotos abaixo:




Que bonitinha, essa cidade. Lembram-se daquele slogan anos 80 "Strassburger, você sabe onde pisa"? Não saía da minha cabeça...
Mas que belezurinha de cidade. Parece que saiu de um pop-up book. Toda de casinhas antiguinhas, ruazetas medievais, uma coisa.

E uma boa comida (claro, a € 30,00 se eu comesse mal ia dar um murro na cara do garçon). Foi lá que eu fui encontrar o Rafael (Moraes) e ver o seu espetáculo. Muito bacana, um belo espetáculo. Circomusicoteatral.
Passei dois dias em Strasbourg e de lá pegamos o caminhãozinho do Rafa em direção à sua casa no sul da França.

Saímos às 9 de la matina, paramos em St.Agil onde fica o pessoal da nave-mãe (a companhia de circo) pra deixar umas coisas e trocar de carro. Tcharamram, Rafael numa atitude bastante rafaelística tacou a mão num prego, que atravessou seu dedo espalhando ferrugem por tudo que fosse carne. Que maravilha... o coitado viu o dedo inchar em 5 minutos que nem um baiacú. O mindinho parecia uma porpeta.
Ok, hospital, anti-tetânica, acabamos chegando depois das 3 da manhã em Fusterouau, nosso destino. Eu dormi bem, essa noite, no trailer. Esse da foto. Muito confortável. Esfriava e esquentava, mas era muito confortável.

Aí foi um maravilhoso final-de-semana. Conheci sua casa, os arredores, fizemos passeios. A casa é linda, fica na região de Armagnac, na Gascogne. Típico sul Francês, próximo dos Pirineus. Lindo mesmo.

Blancaluz tinha a visita dos avós, vindos da Argentina, uma gente muito simpática. Jogamos, contamos piada, comemos pipoca, ouvimos música, foi ótimo.
De lá peguei um vôo barato pra Hamburg (era a melhor opção, € 80,00 mais os €20,00 da mitfahr - contra possíveis € 600,00 se eu voasse no domingo a Dusseldorf).

Como é belo o céu azul da Baviera.
O casal vinha em minha direção, no meio do movimento da rua de pedestres. Eu estava encostado em uma das colunas da frente da galeria, havia acabado de sair do café. Ele, típico alemão, loiro de olhos claros, ela com a pele branca imaculada, jovens e bonitos. E apaixonados. Em frente, um acordeonista rasgava o ar com notas vivazes. Pararam na minha frente e se despediram com um beijo longo, as mãos dela nos cabelos dele. Se olharam ternamente e foram-se, ele rua acima, ela em direção ao metrô. Cada um empurrando com as mãos as rodas de suas cadeiras.
Como é belo o céu azul da Baviera.
Estou no quarto do Hostel, as luzes estão apagadas, são 8 da noite. Descanso um pouco minhas pernas. Hoje foi um dia longo. Lá fora faz um pouco de frio, mas o céu da noite está limpo. Ainda venta um pouco, mas nada como hoje de manhã. Quando acordei, ouvi o assobio do vento nas arvores lá fora. Ventava forte. Das janelas do lobby, pude ver a tempestade se aproximando. Na hora em que saí para tomar café na Backerei, pude sentir o que vinha. O vento atrapalhava para caminhar, de tão forte. E então desabou. Primeiro, muita água fria. Logo, um granizo fino e, em seguida, neve. Inesperado – ontem fazia até um certo calor. Nevou durante toda a manhã, uma nevezinha acanhada mas branca, que encharcou as ruas e os telhados. E ventou.
Tão de repente como veio a neve, limpou-se de súbito o céu e o sol brilhou no sorriso dos turistas e dos vendedores da cidade. E eu, com o coração esparramado, me deixei levar pelas ruas de Munique como uma criança, olhando cada detalhe, cada adorno gótico, cada voluta barroca. Absorvi os cheiros e sabores feito um mata-borrão simbolista. Um milhão de imagens varando os olhos: o relógio de Marienplatz com seus dançarinos de mentira e seus sinos de caixa de música, os olhos esgazeados do pecador morrendo na Asamkirche,

o sabor da Schweinhaxe, todas as lojas das griffes entre Karlsplatz e o caminho até a Rezidenz, a barraca de protesto contra o regime comunista chinês com suas fotos chocantes de pessoas torturadas e mortas, o plácido English Garten e seu banheiro público impecável, os surfistas urbanos do Rio Isar ,
ao lado da Haus der Kunst. O prazer de ouvir a voz alegre da minha tia Erika no telefone (e a antecipação do encontro com ela depois de 16 anos), o sabor do café, uma água que matou uma sede, todas as mulheres bonitas andando rápido para algum lugar, o azul cristalino do canivete suiço que me dei, o frio, o sol, o vento, o céu absolutamente profundo da Baviera. “Ein weisses Propeler auf dem blauen bayern Himmel” – o símbolo da BMW.

Aliás, nota: ontem vim de mitfahr (o serviço de carona via internet, muito mais barato que pegar trem ou avião e em geral mais divertido), numa BMW 525. Nunca estive num carro a 230 Km/h, que eu me lembre. Mas nessa Autobahn, com esse carro, parecia que estávamos a passeio. Mesmo assim, com a quantidade de engarrafamentos que pegamos, a viagem levou quase 9 horas. Mitfahr e Hostel – combinação backpacker. Nada melhor, pra quem viaja sozinho. Primeiro por que é muito barato – o Hostel sai por € 13,00 (em Berlin foi € 8,5) contra € 50,00 dum Ibis por aí. Claro, 3 ou 4 beliches num quarto comum. Mas isso, pra quem precisa conhecer gente pra compartir as observações da viagem, é o que há de melhor. Daqui a pouco saio pra dar uma banda, tomar uma cerveja em algum lugar.

Amanhã encontro a Erika pra almoçarmos. Na segunda, vou a Stuttgart encontrar o Karsten, meu novo tio – achei ele na internet por acaso, e nos tornamos amigos. Pelo que suspeitamos, o avô do meu tataravô é irmão do pai do seu tataravô. Temos a maior parte dos nomes dos pais, avós, filhos, primos e etc – menos desse cara. Por isso não temos certeza. Mas tudo indica que a história está certa, e ele realmente é do outro ramo da família, pessoal da Hungria, Tchecoslováquia e Romênia. Vou saber mais essa semana. Fico por aqui. Saudades de todos os amigos, saudades das comidas, dos sucos e das frutas do Brasil.
ANO NOVO EM WUPPERTAL
BRASIL
Do dia 5 ao 15, praia. Boa companhia, pouca chuva, muito sol, muitos argentinos e argentinas, muita comida. Surfe, no fim, só um dia, de teimosia, nós quatro resolvemos cair num mar mexido. De resto, as maravilhas da praia, suas tardes coloridas, os corpos bronzeados, o cheiro de mar, os pratos do litoral. Leituras no sofá nas horas de muito sol. Aliás, o que é água-furtada? Posso procurar na WEB, e vou, mas pergunto mesmo assim. E inventei a Dodecacofonia. Que é uma escala de 12 graduações de sons horríveis (e cafonas).
E Curitiba. Tatuagem, que não deveria doer muito e doeu pacas. Não deu pra ir muito longe, ainda falta bastante coisa pra terminar. Não é uma tatuagemZINHA. Não mostro agora numa foto, além das que já mostrei, agora só quando estiver pronta.
Em Curitiba revi a Teoria da Pizza Eterna, junto com Feco e Guito numa noite de fome. É a minha solução para a fome no mundo. Uma pizza inteira. Divida-a pela metade e sirva uma parte. A parte que sobrou, corte novamente pela metade e sirva um pedaço. O pedaço restante, divida mais uma vez. E assim sucessivamente, vá cortando pela metade e servindo. Sempre haverá metade para servir. Assim está resolvido o problema da fome. Obrigado, obrigado, eu não quero nada em troca, só reconhecimento. É um paradoxo, na verdade, conhecido como Paradoxo da Flecha, do filósofo grego Zenon. Uma flecha, que se desloca em direção a um alvo fixo. Cumpre metade da distância, mas há ainda metade da distância para cumprir. Então, cumpre mais metade dessa distância restante, mas ainda há metade para cumprir. E assim para sempre, com uma metade por cumprir, a flecha nunca atinge o alvo (Mas ela atinge, viu. Pode dormir).
Beijos em todos os irmãos, no pai e na Célia, um pouco de coração apertado na hora de pegar o elevador e São Paulo mais um dia, antes de voar.
O vôo da British saiu no fim da tarde.
Eu não pude dormir nesse vôo. Talvez estivesse muito ansioso, ou excitado pela nova mudança de ares, não sei. Fiquei assistindo aos filmes, lendo, dava umas pescadas de vez enquando. No meio da madrugada, acordei de um desses breves cochilos. O avião estava escuro e o motor parecia mais ensurdecedor. Ao meu lado, o casal que viajava pra Macau dormia. Abri a janelinha. No céu, as estrelas salpicavam o escuro com pontinhos. No horizonte, mais ou menos à mesma altura em que voávamos, uma densa névoa branca se estendia como uma via-láctea de vapor esbranquiçado, dividindo o campo visual em duas grandes abóbodas. Quando olhei para baixo, no meio do breu azulado, me surpreendi com ver estrelas. Estou sonhando ainda? O mar está refletindo as estrelas? Não é possível, mas o que eu via era absurdo e me dava a impressão mais insólita, de estar num avião cortando o espaço sideral, pois para onde eu olhasse só via céu escuro e estrelas, embaixo e em cima. Fiquei alguns minutos me nutrindo daquela visão, contendo a minha ânsia de respostas. Quando alguém acendeu uma luz na cabine, alguma aeromoça, saí sem querer desse pequeno transe. Eram navios na costa de portugal. No escuro e tão longe estavam, que suas luzes brilhavam como estrelas. Eram inúmeros, um belo mar de estrelas.
Antes, durante a noite, já havia aberto a janela ao acaso uma ou duas vezes. Numa delas, me deparei com a luz noturna de uma ilha. Ora, era uma ilha de porte razoável, e no Atlântico não é assim, que vamos vendo ilhas a torto e a direito. Consultei o mapa na tela à minha frente. Estávamos sobrevoando Cabo Verde.
Manhã fria em Londres – nada muito pior do que eu deixei no amalucado verão do sudeste brasileiro (em SP fazia 15 graus quando saí), um atípico clima invernal – mas dentro do caríssimo aeroporto de Heathrow a temperatura era amena. Até quente, para o casaco de couro e pelo de carneiro que eu usava.
Foi no portão 17 do Terminal 4 que eu comecei subitamente a me sentir de novo na Europa. Sentado numa poltrona de couro vermelho, aguçei os ouvidos. Nada de minha língua. A maioria falava alemão, um e outro inglês. Foi ali que de novo a solidão foi tomando seu assento, me fazendo de novo estrangeiro.
Em que momento exato a gente passa sobre a linha que separa a terra da água? É tão breve e inexistente quanto o átimo em que um dedo toca o outro? Quanto tempo leva esse primeiro instante? E o instante em que um dedo se desliga de outro, quanto tempo leva? Em que instante mergulhamos nosso corpo num lago, exatamente em que instante esse lago nos recebe?
E um frio desgraçado, carnaval na alemanha, vampiros, piratas, monges, espermatozóides, caixas de remédio, bruxas, todas as fantasias bem feitinhas, todos em grupos, bem bêbados e risonhos, naquele dia gelado, na estação de trem de Dusseldorf. Umas paradas depois, Tiergartenstr.232, muito sono e aqui estamos.