Terça-feira, 30 de Junho de 2009

O Crepúsculo dos Deuses

Uma semana de dizer adeus.

Quando eu era menino, reunimos um grupo de garotos na escola para dançar o break, em voga na época. Michael não dançava break, Michael dançava Michael. E nós olhavamos maravilhados aquele magrinho estranhíssimo (não sabíamos o que ele queria dizer, não sabíamos se ele queria ser homem ou mulher – nós, meninos, fazendo enormes esforços para parecermos homens), e ele deslizava no chão como se tivesse molas no corpo, sua música fazendo pular nossos ossos. Dançávamos o break e queríamos ser o Michael (ainda que aos doze anos nenhum de nós fosse admitir).

E continuamos todos sempre querendo ser Michael Jackson, a sua graça e a sua força.

Anos mais tarde, eu estava na casa de minha namorada, Morena, num final de semana. Ela trouxe uma fita de vídeo e colocou no vhs para vermos. Eu não entendi nada, e ela ali, vidrada. Era Pina Bausch. Cafe Müller, se não me engano. Morena se apaixonou por Pina Bausch, foi para a Alemanha e hoje, dez anos depois, está no Tanzteather Wuppertal.

Há alguns anos fui morar em Wuppertal (um destino que me veio cheio de nós antigos para desatar), encontrar Morena – apaixonado e romântico Lord Byron – e tive o privilégio de assistir a várias apresentações de Sacre du Printemps, Cafe Müller e muitos outros espetáculos dessa dama de Solingen. Foi um meu crescimento, e eu agradeço inteiro.

Por isso me doeu saber hoje de manhã - Pina fecha os olhos e aquieta o corpo.

Não sei o que será de Pina Bausch sem Pina Bausch.

Lá fora um céu azul com nuvens que deslizam solenes me lembra uma procissão elegante. As nuvens levam no dorso as almas flutuantes da dança e da música. Quem sabe se num Café Divine ou numa Disco Celeste esses dois titãs não se encontrem, queria imaginar sua conversa: dizer com o corpo aquilo que nenhuma palavra vai dizer.

E dizemos adeus, adeus Michael, adeus Pina.



Quinta-feira, 23 de Abril de 2009


The Hallway from The Hallway on Vimeo.

Segunda-feira, 9 de Março de 2009

Assento Flutuante

Eu to na pilha de falar uma pá de bugrices aqui hoje. Sem ficar muito calculando táiming. Sem entrar numas de analisar e pá. Tipo, mandar um "poblema é que as condição momentâneas não permite".

Por que tem um negócio.

Eu despenco lá de Wuppertalquepariu, que é no interior mais germanístico da Alemanha (que aliás só tem interior mesmo), onde o hype era ficar tentando ver TV numa TV que não existia ou desenhar carinhas na neve sobre os parabrisas dos carros dos turcos e dos indianos e de uns alemãezinhos ali do bairro. Não, meu nego. Eu atravesso essa água toda, feliz que nem pinto no lixo, pra chegar nessa cidade improvável que é São Paulo e, tchan nam nam: passar o fim de semana inteiro sem encontrar ninguém. A mas vápa.

Tá, encontrei uma pessoa-tatuagem, no finzinho do domingo, mas isso foi tão hors-concours que eu não contabilizo como vida normal. Pessoas tatuagem são essas que ficam, mesmo que você não veja nunca, ela tá sempre lá. Uma vez e é pra sempre. Mas é muito insólito, não conta.

A cidade já começou 2009, né? Cadê então? Me largaram aqui no sofá vendo universal - não a igreja, que deus a tenha. A marca. Marca de filminho. Se não fosse Caetano e Flora. Pelo menos levei eles pra passear. Ela, que os dois eu não consigo dar atenção.

Daí, fiquei pensando. Vai lá, escreve lá. Faz tempo que você não escreve. Mas.
Falar do padre que excomungou? Preguiça. Falar das asneiras da TV, piada pronta? To sem saco. Dia da Mulher? não... não estou à altura no momento. Vai ficar fraco.

Quer saber, não vou falar é nada, quem quiser que pense sozinho. Bugrice não vai faltar pra depois.

Cadê meu sofá? Cença.


ufs...

Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

Notícias da Cidade

Jovem herdeiro recarrega bilhete de ônibus com 20 mil

Para a família do jovem Heitor Schrottplatz, 23, foi um alívio. Desde o falecimento do pai, o empresário do ramo de cabides Ramires Schrottplatz, o jovem vinha manifestando diariamente um comportamento agressivo e causando complicações com os vizinhos e visitas. Diagnosticado com uma síndrome rara, conhecida como "Sídrome do Cachorro Velho", por causa do comportamento aparentemente canino dos pacientes (como esconder comida em buracos no quintal) Heitor foi considerado incapaz de trabalhar aos 17 anos, por uma junta médica. A partir de então, passou por diversos tratamentos psiquiátricos e terapias, sem sucesso.
O quadro piorou no fim de 2008, quando o pai, que sofria de leucemia, veio a falecer. Heitor passou a fugir de casa nú para defecar em frente à padaria do bairro, além de gritar obcenidades para os passantes. Constrangidos, os familiares procuraram ajuda da vidente Mariazinha D'além, que os aconselhou a perguntar ao jovem a respeito de seus desejos.
Foi a avó de Heitor que descobriu: Heitor gosta de passear de ônibus.
Daquele momento em diante, primeiro com a avó e depois sozinho, Heitor passou a ser passageiro frequente das linhas que ligam seu bairro, Sapopemba, em São Paulo, ao centro da cidade. Com a prática diária, ele agora já circula por toda a cidade, subindo e descendo de ônibus constantemente, seja qual for a linha e o percurso.
Heitor sai às 6 da manhã e pega sempre o mesmo ônibus. Por isso, já ficou conhecido como "o menino maluquinho", e é querido pelos motoristas e cobradores. "Em 20 anos de empresa, nunca vi uma coisa dessas. Ele vai de ponto final a ponto final" diz o motorista Uéllinton, um de seus conhecidos. De fato. Sem parar pra comer, Heitor para apenas alguns minutos em cada ponto. chega em casa sempre às 10 da noite, pontualmente.
Mas o que impressiona, na realidade, é o fato de que Heitor, filho de um dos maiores empresários do país, tenha comprado com sua herança 20 mil reais em créditos do bilhete único, a passagem que funciona para o transporte na cidade. Com esse dinheiro, ele poderá andar de ônibus sem parar por 1242 dias, ou quase 3 anos e meio. "Ele é a alegria das viagens", garante o cobrador Jesuelino Almeida, outro amigo do jovem. Haja alegria, com o trânsito da nossa cidade...



Amor incondicional

O caso seria apenas mais uma história de amor, se não fosse pela natureza insólita dos personagens. Ela, advogada, 42 anos, carioca moradora de São Paulo há 20, situação financeira definida. Ele, 6 anos, simpático cão de raça labrador, boa saúde e trata fina.
Foi enorme a surpresa do tabelião quando Maria, a advogada, chegou no cartório com seu adorado Malaquias e perguntou no balcão: - nós vamos casar. Onde eu preencho os documentos?
Ainda descrente, André, o tabelião, perguntou: pois não senhora, onde está o noivo?
A resposta veio direta: é esse, o Malaquias. "Pensei que fosse videocassetada, pegadinha, sei lá! Olhei pra todo lado procurando a câmera. Mas a mulher estava tão séria que eu acabei entendendo que ela queria mesmo casar com o cachorro. Deus que me perdoe. Esse mundo tá virado..."
Obviamente, André não aceitou o pedido de Maria, o que deixou a advogada bastante contrariada. Tão contrariada que ela mesma chamou a polícia. Munida de uma revista onde o antigo Ministro do Trabalho, Rogério Magri, dizia com todas as letras: "cão também é ser humano", ela garantia diante do atônito delegado que poderia sim, se casar com Malaquias. E completava: não é casamento gay! Ele é macho!
Após um debate caloroso, Maria foi convencida a deixar a delegacia. Mas não se amofinou. No dia seguinte, acampou em frente ao cartório, onde permaneceu mais de uma semana, em protesto pela negativa ao seu pedido. Na frente da sua barraquinha, ao lado da tigela de água de Malaquias, um cartaz explicava: "aqui luta um par romântico pelo seu direito ao amor".
Hoje de manhã, a trupe de teatro de rua "Treato Drua" representou na calçada o casamento de Maria e Malaquias, com direito a padre de mentirinha, vestido, véu e grinalda. No momento do beijo, o Padre Saló (personagem do ator Xuxú Beleza) trocou o texto por algo mais adequado: pode lamber a noiva.
Os dois pombinhos já voltaram pra casa e vivem felizes sua lua-de-mel.

Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

As Minhas Mulheres



Eu não poderia deixar passar em branco um dia como hoje. Poderíamos pintá-lo de escuro nebuloso, ao anunciar a morte do ícone máximo da geração pin-up americana, Bettie Page. No entanto, a imagem da moça seminua, com suas carnes duras e voluptuosas, sorrindo convidativa em fotos e desenhos só pode trazer ao pensamento um dia de sol e cores vibrantes, de alegria e sensualidade. Há quem não entenda nada e veja nos ensaios de Bettie Page uma vulgarização banal, a despersonificação da mulher – que na esteira da sensualidade ingênua das pin-ups dos anos 50 foi subitamente institucionalizada pela revolução porno-editorial de Larry Flint nos anos 70 – mas esses não entendem nada. A pin-up é uma personagem típica do imaginário americano do período pós-guerra (ainda na segunda guerra, os aviões de combate recebiam na fuselagem a pintura de suas musas, pin-ups sorridentes em poses provocativas).


Sua atitude é, no mais das vezes, sexy e pretensamente ingênua. Vestidos que levantam com o vento, cachorrinhos puxando biquinis, penteadeiras com espelhos indiscretos, sempre motivos bem-humorados, sensuais e de certa inocência romântica - ainda que inevitavelmente provocantes. E antes do Photoshop. Antes da lycra, da cirurgia plástica fast-food e da ditadura do alface e do chá das sete ervas... quando mulher podia ter carne por cima dos ossos.



E Bettie Page é a representação máxima dessa sensualidade. De um tempo em que não havia AIDS, em que o amor livre ainda não havia confundido as pessoas, em que a TV não abundava e a excitação, dada a forte repressão e os tabus reinantes, acontecia com meras sugestões sutis. As pin-ups, nas folhinhas de calendários, postais e fotos de revistas, eram as grandes subversivas, atacando com seus sorrisos e suas coxas grossas, seus traseiros empinados e seus mamilos pontiagudos a moral hipócrita da família americana média. Eram o que os rapazes das oficinas, os vendedores ambulantes, os entregadores e todos os jovens chamavam de “cheesecakes”.




Marilyn Monroe está entre elas. Ingrid Bergman, Ginger Rogers, Mae West, Marlene Dietrich, a icônica Bettie Grable, Joan Crawford, Ava Gardner, Judy Garland, Rita Hayworth, La Bardot, Farrah Fawcett, Daryl Hannah, todas foram, em suas épocas, pin-ups em algum momento. Isso pra citar algumas mais famosas.

Pessoalmente, a imagem da pin-up sempre foi pra mim o que, dentro das minhas descrições visuais do corpo da mulher, melhor define meu objeto de desejo. Creio que é uma tatuagem mental pré-adolescente – da época em que eu me fascinava com aviões de guerra e suas lendas. Ficou na minha mente a personagem de Rocketeer, desenhada nos anos 80 e criada à imagem e semelhança de Page.





Eu era menino e via as fotos de bombardeiros e caças e sempre me apaixonava pelas mulheres desenhadas abaixo das cabines dos pilotos, as fotos das atrizes daquela época, com seus olhos baços e distantes. Adolescente, eu queria me apaixonar por uma mulher assim. Aliás, não mudei nada – sou incapaz de conter um suspiro diante do rosto delicado de Ingrid Bergman, um olhar cuja característica aprendi a definir em francês aos 15 anos e pela sonoridade creio fica melhor que em outras línguas – lointain. Lointain parece que vai levar uma eternidade pra ser atingido – e aqueles pares de olhos mirando através do estúdio de fotografia, pareciam olhar as estrelas. Provavelmente olhavam para o mesmo ponto que os bicos dos seios das alegres e saltitantes pin-ups, atravessando meu cérebro no caminho e deixando um rastro cheiroso de expectativas e fantasias.




Mas eu continuo o mesmo menino, parece. Felizmente.
Até a semana passada, na minha cozinha na Alemanha, aterrorizava meu café-da-manhã a imagem bizarra da atraente pin-up gigante de "The Attack of the 50ft Woman". Poster A de filme C. A cozinha eu deixei pros alemães, mas a giganta eu trouxe comigo pra São Paulo.







Bettie em momentos Hard Core


Bettie Page deixa a terra e uma legião de fãs, muitos dos quais com espinhas na cara e cabelos na palma da mão, afogeados na ânsia do prazer solitário – e outros como eu, que viam e vêem naquele sorriso sem vergonha uma energia feminina indefectível, uma coragem de desfazer nós e tabus com bom humor, a delicadeza brejeira e perfumada – uma flor que desabrocha eternamente, intensamente.



Page aos 80 anos, em 2003

Sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

Abre as asas sobre nós.

Você é o que você pensa.

Eu já ouvi essa frase inúmeras vezes. E concordo com essa idéia.

Porém, o que é que você pensa? Será que você pensa mesmo, ou o seu pensamento é a linha final do pensamento de outro?

No nosso ambiente ocidental ocidentalizado, estamos acostumados a valorizar e dar como certas a liberdade de criação e expressão individual. Mesmo no Brasil, onde a desigualdade social mina a formação intelectual e subrai possibilidades e oportunidades da grande maioria, a criatividade e a comunicação fazem parte de um conceito de contemporaneidade e sofisticação que todos, a despeito de renda ou outra classificação, assumem como virtude e desejam viver.

E eu concordo com isso também. Criar e expressar são valores inestimáveis, e as idéias, transformadas em atos ou palavras, vem há dezenas de milênios transformando cada vez mais o ser humano naquilo que ele é, para bem ou mal – são nosso grande patrimônio enquanto espécie. Talvez o único, de fato.

Mas.

Eu não assisto TV. No entanto, não preciso sair de casa pra conhecer a influência dessa e de outras mídias sobre o pensamento e comportamento dos meus concidadãos. Basta olhar pela janela de casa. A forma como se vestem, como andam com seus filhos. A forma como se beijam (ou não se beijam, aqui nesse país estranho). Os olhares, as palavras, o sexo. Tudo é absolutamente permeado e moldado pelos modelos expostos (impostos?). Ninguém é livre, na verdade. A liberdade é uma farsa. Mas o cerceamento da liberdade não carece de violência ou imposição – ele está para o ser humano como a água para o peixe – o peixe não deseja a água, ele simplesmente vive nela e não sabe (e nem deseja) viver fora. O ser humano simplesmente é aquilo que ele moldou como estrutura social, ele é humano por que é social – e dentro dessa estrutura, a liberdade é tanto mais linda quanto mais utópica. O peixe não percebe a água, e se vê absolutamente livre dentro dela. Claro – que outra opção ele teria?

Antes da TV, antes da globalização, não era assim? Talvez não exatamente. A influência não vinha de um tubo de vidro cuspindo pensamentos pré-formatados. Vinha da boca de outras pessoas, de livros, de professores, de exemplos nacionais. Mas os pensamentos, ainda que diferentes dos de hoje em dia algumas vezes, eram igualmente pré-formatados. Apenas, por conta do regionalismo intransponível, essas idéias eram menos homogêneas.

Na tribo indígena, no Alto Xingu ou na margem do Eufrates, sem TV ou rádio, as mentes eram da mesma maneira ordenadas de acordo com pré-concepções adequadas ao modus vivendi e status quo. Nada muito diferente.

Por isso, continua a pergunta: você é o que você pensa? Ou estão pensando por você? Que idéia realmente sua, que criação sua e expressão apenas sua veio à tona até hoje? Raras vezes essa pergunta vai ser respondida com um exemplo que faça jus. Você pode me dizer, e vai estar certo: mas, Daniel, é claro, todas as nossas criações pessoais são somas e traduções e sínteses de idéias que já existem, ninguém tira algo do nada. Sim, mas não é disso que eu estou falando. Não estou falando de criar arte, de criar um novo pensamento filosófico, uma nova solução para os problemas do mundo. Estou falando de coisas simples. Da maneira como olhamos a pessoa ao lado no ônibus, ou os pedestres através da janela blindada do carro. De como registramos internamente o mundo, a gente, os eventos.

Alguma vez você já teve a sensação de que aquela idéia que surgiu automaticamente na sua cabeça ao se deparar com algo novo (seja conhecer alguém, receber uma sugestão diferente para resolver um problema, viajar e ver outra cultura), aquela idéia que você sempre tem sem saber de onde vem (e que se assemelha no mais das vezes a um escuro NÃO) não é necessariamente sua, que ela foi plantada ali por anos de educação (ou des-educação) formal, de bombardeamento midiático, de um ataque maciço incessante de fórmulas pré-concebidas e convenções? Ora, mas eu não, eu sou muito crítico, eu tenho muita sensibilidade, eu sou muito intuitivo, eu não julgo as coisas, eu deixo rolar, eu eu eu.

Preste atenção: não há EU. Você é o que fizeram e estão fazendo com seu pensamento. Você é qualquer outra coisa, menos você absolutamente. E quando eu digo “fizeram”, tenho que me corrigir e dizer “fizemos e estamos fazendo com o nosso pensamento”. Ou não somos a sociedade, ou não somos nós os responsáveis? Ou não somos nós os cordeiros, afáveis e cordatos – desde que nos dêm nossa novela, nosso programa de domingo-pizza-fantástico (ou cinema, para os que podem pagar). Nos basta o Jornal Nacional, a Folha de São Paulo, a Veja. Mas não, Daniel, eu leio, eu leio muito. Leio livros, outras revistas, sou antenado. Antenadíssimo, meu caro, você está antenadíssimo. Provavelmente você vai de uma hora pra outra regurgitar o que leu em cima do meu cachecol. Vai chegar com máximas políticas, com pensamentos filosóficos – que você pode até conhecer a fundo. Mas me diga algo novo, seozé. Você é mais um títere – só é mais paramentado – tem mais articulações.

Desculpe. Não há saída. Eu não tenho uma pílula vermelha que vai te arrancar do sistema.

Voltando: o peixe não percebe a água, e se vê absolutamente livre dentro dela. Claro – que outra opção ele teria?

Evoluir, talvez.

Foi um peixe igual a outros que saiu da água um dia, um instante, e sem perceber começou com tudo o que temos de vida sobre a terra (a não ser que você seja criacionista, – por favor me diga se for, eu adoraria conversar pessoalmente – você provavelmente aceita essa hipótese como a mais provável para explicar o passado), um peixe que saiu: literal e metaforicamente podemos dizer que transcendeu.

Eu não tenho a pílula vermelha, mas talvez, eu tenha uma sugestão. Eu não sou nenhum sábio, nenhum guru, e essa idéia não é nova, nem é mais minha do que de muitos outros que já pensaram a mesma coisa. Mas é um caminho talvez interessante.

E é uma sugestão muito simples: preste atenção.

Não se preocupe, não vai durar muito – a vida é uma só e não demora. Você consegue, não é tão complicado. Com um pouco de treino vira um hábito.

Preste atenção ao momento. Ao presente – preste atenção ao que está em volta. Abra o olho. Preste atenção – o que está ao seu lado não é pré-concebido. É apenas nesse momento que está acontecendo – das zilhões de possibilidades intermináveis, essa que está aí, no momento, é a que está no foco. Ela é simples, insubstituível e essencial. Então não desperdice, olhando como se já esperasse. Você não esperava. Absorva o momento, esteja inteiro ali – onde mais você quer estar? Onde mais você pode estar?

Isso é apenas não perder a oportunidade de usufruir daquilo que está sendo dado.

Não há como pré-conceber o presente. O instante real, aquele que está sendo vivido, aqueles doze segundos entre o que já foi e o que vai ser, não há como julgar. Ele não é uma expectativa, ele não é uma consideração ou uma conclusão, ele não permite lentes ou truques de espelho – por isso ele é o real. Preste atenção nele, sem vesti-lo das cascas velhas que nos ensinam a usar para cobrir o que é indesejado – o preconceito. Deseje o presente. O presente nu.

Creio que isso nos levaria muito além.

Terça-feira, 16 de Setembro de 2008

O Canto da Sereia




Tá, eu vou tentar entender.

Abre o site, que é pra ser um site de informações e notícias. No que poderíamos chamar de “primeira página” está “estampado”, com certo destaque, a “notícia”: “Carolina Diekmann fica 5 dias sem lavar o cabelo”. Estão me provocando, é algo pessoal – pensei. Quem dera fosse.

É um site jornalístico, de um grupo empresarial grande. E me vem com esse tipo de “notícia”? Eu sei, tem muita gente que vai achar isso interessantíssimo, como assim, ela não lava o cabelo, e blábláblá. Mas é um jornal, de notícias, abrangência internacional. Custa caro, cada pixel naquela homepage vale muito dinheiro. Não vou dizer o nome do jornal, por que na realidade tanto faz, todos eles dão essas derrapadas frequentemente.

Quando eu abro um jornal, quero saber o que está acontecendo no mundo, no país, saber da vida. Mas não isso. Ou até, se quiser, pode ser, mas não na primeira página. Me constrange.

Talvez, eu esteja muito acostumado com a maneira de ver dos meus concidadãos alemães. Aqui na Kartofelândia eles não ligam tanto pra aparência como no Brasil. Eles não estão de fato muito aí pros modelos de beleza – sabem que existem, sabem quem são e gostam de apreciar, mas não são viciados em aparência como nós (me incluo solidária e tristemente). Ao contrário, às vezes ligam tão pouco que chega a ser embaraçoso. Não é raro encontrar alemães com os dentes à moda Maria Elvira de Manuel Bandeira – em petição de miséria. Eles não compram a prazo e não acreditam em creme dental, parece. Eu não ligo. Aliás, em relação a isso, acho ótima a vida aqui. Não há a menor pressão pra ser “O” bonitão da parada, ter a barriga riscadinha, o cabelinho tictic, a roupa Xplus. Não, aqui melhor é você saber coisas, poder conversar inteligentemente e surpreender com seus pensamentos. Até porque eles não são chegados em “primeiras impressões”. A primeira impressão, para os alemães, aquela tal “que fica”, acontece muito depois do primeiro contato. E não é muito fácil ultrapassar a barreira desse(s) primeiro(s) contatos e chegar a causar alguma impressão de fato.

Por isso eles são vistos como frios. Mas olhando com olhos abertos, isso deixa de ser um defeito teutônico, e passa a ser uma qualidade interessante. Por que assim, eles não compram a fachada, a máscara, o verniz, como nós brasileirinhos espertos, costumamos fazer. Aqui, se você é um cretino num carrão, cheio de dinheiro no bolso, bonito e bem vestido, pra maioria das pessoas você é o que é: um cretino.



Uma amiga minha, quando me conheceu, me disse ao me ver escolhendo roupas pra me vestir: vocês, brasileiros, são mesmo “coquetos”, não? Heim? Coquetíssimos, vocês brasileiros...! – no seu sotaque latino-americano hispânico, eu achei graça. Mas depois pensei a respeito um pouco e me deu uma ponta de dúvida – será que isso é bom, ou nós estamos tão enfiados na influência da mass-media que confundimos a beleza com a aparência superficial em tudo e de uma maneira tão intensa que esquecemos o que se passa por trás do cartão de visita? E se for assim, somos uma nação de neuróticos, querendo perder um quilinho a mais aqui, puxar uma ruga ali, gastando rios de dinheiro, tempo e trabalho com futilidades de uma vaidade vã, enquanto outros povos estão estudando as profundezas da terra, da alma ou do próton? Será que estamos vendo TV demais?



“O Brasil é a capital do mundo em cirurgia plástica” – é a opinião de Rahda Syed, presidente da Sociedade de Medicina Estética dos EUA. Curioso, não? Somos uma nação de contrastes, onde a miséria coabita as cidades mais ricas, misturando-se apagada e ruidosa aos carros importados e madames conduzidas por motoristas. Mas isso não importa, ao brasileiro importa muito estar parecido com o modelo que ele vê nos meios de comunicação. Somos o povo que mais faz plástica no mundo. Eta povinho pra nascer errado né? Se não, pra quê tanta correção?


Que pena. Com a abundante e sub-utilizada criatividade escondida nas ruas do país, com toda a entregue alegria com que o povo se dá ao prazer de viver, é triste perceber que muito dessa energia se desvia e se perde em recalques tão desimportantes.

Há um tempo atrás, quando ainda vivia em Curitiba, lembro de descer a serra com algum dos meus irmãos. No meio do caminho, passamos sob um enorme outdoor, onde o rosto de uma belíssima mulher nos olhava provocante, tentando vender alguma coisa. Que obviamente não me lembro o que era. Nós dois comentamos a respeito da beleza estampada, e eu disse, professoral, “linda, mas não é uma mulher. E isso a gente tem que ter sempre na cabeça. Isso que está ali, não é uma mulher”. Ele me olhou um tanto espantado, e disse, “claro que é uma mulher”.

Essa é uma idéia antiga, que se sedimentou em mim durante meus últimos anos em São Paulo.

Convivendo com o meio das produções cinematográficas e toda a entourage envolvida, fui entendendo a partir das minhas experiências afetivas com as belas atrizes e outras profissionais do meio, que muitas vezes sem querer a gente vê a foto, e não a pessoa. E se apaixona pela foto, sem perceber. Tarde demais, eu caía na real e via que a mulher que estava ao meu lado era bem um ser humano – mudança de percepção que podia vir para bem ou para mal. Mas sempre foi surpreendente. Então, passei a notar como todos a minha volta estavam, como eu, enebriados pelas belas fachadas. O glamour. As luzes. O brilho. Um globo espelhado de vaidades, que gira frenético e ilumina as pessoas como a lâmpada atraindo as moscas. Mas as moscas que ali encostam, em geral se queimam.

E eu percebi ali, com as minhas relações, que esse tipo de ilusão na verdade se extendia para além dos namoros e amizadas. Essa ilusão é só mais uma faceta do consumismo histriônico que afeta os ocidentais, em especial os brasileiros e muito intensamente os paulistanos e outros cidadãos de grandes centros. E, devagar, eu fui notando isso em cada gesto dos meus conterrâneos. Na maneira como as pessoas saem pra se divertir. O paulistano vai em três a quatro ou cinco lugares numa noite de sábado – como numa ânsia de ter todas as baladas de uma vez, como se o “imperdível” fosse de fato imperdível. E compra. Gadgets, roupas, badulaques, objetos pra casa, brinquedos com luzinhas que piscam. Somos índios sendo iludidos pelos colares de contas e bolinhas de vidro dos conquistadores do império.

Alguém já parou pra pensar o que isso causa, no final das contas? Pra onde vai toda a porcaria consumida, a quantidade de lixo resultante? E eu posso falar de lixo físico, mas acho que o espectro vai muito além do objetivo (na verdade, sobre o lixo palpável alguém já pensou e colocou em vídeo, assista). No meu caso, levou alguns anos pra recolocar minha pessoa no espaço da realidade – e não sem grandes sacrifícios. Por que a ilusão, essa ilusão de glamour e importância, é como um ópio, enebria e vicia. Todos somos amigos do Rei. É cocaína pura, e de graça. Mas o revertério é brabo.

O clichê “a verdadeira beleza é a interior”, ainda que clichê, deveria ser mais bem arraigado na mente dos nossos brasileirinhos e brasileirinhas. Eu não desprezo a beleza física – sempre fui atraído em primeiro lugar pelo que vi nas mulheres, e só depois pela sua personalidade. Mas isso é óbvio, eu não sou cego, e ainda por cima sou homem. O que me faz altamente susceptível ao contato visual. Mas estou bastante escolado pra saber que mulher bonita pode ser só isso – mulher bonita. E isso não garante nada de nada. Meus amigos matchos que me desculpem, mas um rostinho bonito num corpinho ajeitado não garante nem uma boa noite de sexo – cansei de me deitar com moças esculturais que não sabiam onde o galo canta. Às vezes, não sabiam nem que existe um galo, e que ele pode cantar. Como diz meu primo, "lindas de longe, longe de lindas".

Pode ser a gostosa que for, se não tiver estofo é melhor não gastar tempo. Muito menos lábia, dinheiro, fosfato, o que seja. Não me venha com a conversa de que “você quer ela pra conversar?”. Sim, eu quero ela também pra conversar, minha vida é muito curta, me desculpe. Preciso de mais do que um cartão de visita pra sentir alguma emoção. Afinal, o sexo começa na cabeça (as moças em geral já sabem disso por sua própria natureza). Que diremos do Amor. Se você não descobriu isso ainda, meu caro, está perdendo grandes momentos.