sábado, 1 de março de 2008





Como é belo o céu azul da Baviera.
O casal vinha em minha direção, no meio do movimento da rua de pedestres. Eu estava encostado em uma das colunas da frente da galeria, havia acabado de sair do café. Ele, típico alemão, loiro de olhos claros, ela com a pele branca imaculada, jovens e bonitos. E apaixonados. Em frente, um acordeonista rasgava o ar com notas vivazes. Pararam na minha frente e se despediram com um beijo longo, as mãos dela nos cabelos dele. Se olharam ternamente e foram-se, ele rua acima, ela em direção ao metrô. Cada um empurrando com as mãos as rodas de suas cadeiras.
Como é belo o céu azul da Baviera.

Estou no quarto do Hostel, as luzes estão apagadas, são 8 da noite. Descanso um pouco minhas pernas. Hoje foi um dia longo. Lá fora faz um pouco de frio, mas o céu da noite está limpo. Ainda venta um pouco, mas nada como hoje de manhã. Quando acordei, ouvi o assobio do vento nas arvores lá fora. Ventava forte. Das janelas do lobby, pude ver a tempestade se aproximando. Na hora em que saí para tomar café na Backerei, pude sentir o que vinha. O vento atrapalhava para caminhar, de tão forte. E então desabou. Primeiro, muita água fria. Logo, um granizo fino e, em seguida, neve. Inesperado – ontem fazia até um certo calor. Nevou durante toda a manhã, uma nevezinha acanhada mas branca, que encharcou as ruas e os telhados. E ventou.



Tão de repente como veio a neve, limpou-se de súbito o céu e o sol brilhou no sorriso dos turistas e dos vendedores da cidade. E eu, com o coração esparramado, me deixei levar pelas ruas de Munique como uma criança, olhando cada detalhe, cada adorno gótico, cada voluta barroca. Absorvi os cheiros e sabores feito um mata-borrão simbolista. Um milhão de imagens varando os olhos: o relógio de Marienplatz com seus dançarinos de mentira e seus sinos de caixa de música, os olhos esgazeados do pecador morrendo na Asamkirche,


o sabor da Schweinhaxe, todas as lojas das griffes entre Karlsplatz e o caminho até a Rezidenz, a barraca de protesto contra o regime comunista chinês com suas fotos chocantes de pessoas torturadas e mortas, o plácido English Garten e seu banheiro público impecável, os surfistas urbanos do Rio Isar ,




ao lado da Haus der Kunst. O prazer de ouvir a voz alegre da minha tia Erika no telefone (e a antecipação do encontro com ela depois de 16 anos), o sabor do café, uma água que matou uma sede, todas as mulheres bonitas andando rápido para algum lugar, o azul cristalino do canivete suiço que me dei, o frio, o sol, o vento, o céu absolutamente profundo da Baviera. “Ein weisses Propeler auf dem blauen bayern Himmel” – o símbolo da BMW.


Aliás, nota: ontem vim de mitfahr (o serviço de carona via internet, muito mais barato que pegar trem ou avião e em geral mais divertido), numa BMW 525. Nunca estive num carro a 230 Km/h, que eu me lembre. Mas nessa Autobahn, com esse carro, parecia que estávamos a passeio. Mesmo assim, com a quantidade de engarrafamentos que pegamos, a viagem levou quase 9 horas. Mitfahr e Hostel – combinação backpacker. Nada melhor, pra quem viaja sozinho. Primeiro por que é muito barato – o Hostel sai por € 13,00 (em Berlin foi € 8,5) contra € 50,00 dum Ibis por aí. Claro, 3 ou 4 beliches num quarto comum. Mas isso, pra quem precisa conhecer gente pra compartir as observações da viagem, é o que há de melhor. Daqui a pouco saio pra dar uma banda, tomar uma cerveja em algum lugar.



Amanhã encontro a Erika pra almoçarmos. Na segunda, vou a Stuttgart encontrar o Karsten, meu novo tio – achei ele na internet por acaso, e nos tornamos amigos. Pelo que suspeitamos, o avô do meu tataravô é irmão do pai do seu tataravô. Temos a maior parte dos nomes dos pais, avós, filhos, primos e etc – menos desse cara. Por isso não temos certeza. Mas tudo indica que a história está certa, e ele realmente é do outro ramo da família, pessoal da Hungria, Tchecoslováquia e Romênia. Vou saber mais essa semana. Fico por aqui. Saudades de todos os amigos, saudades das comidas, dos sucos e das frutas do Brasil.